sábado, janeiro 20, 2007

Céu de Inverno

Luar numa noite de céu encoberto

Sabes, apetece-me chorar, mas um choro espiritual
Para que só nós o percebamos…
Apetece-me deixar-me sufocar pelas mágoas
Que há muito reprimo em masmorras de lama…
Apetece-me chorar, choro subliminal,
Versos de Apolo em harpas rendidas ao infortúnio…
Há muitas formas de se perder a inocência
Se a vires diz-lhe para voltar… quero adormecer na ingenuidade
De que amanhã estarei a brincar e a construir castelos de lama
E que o príncipe derrotará o dragão e salvará a sua dama…
Apetece-me chorar, devaneio lacrimal, e só tu e eu…
Só tu e eu o percebemos, no Éden do nosso amor.

04.09.04

Monólogo a Dois



Os meus restos descansam no frio da pedra,
Se ao menos eu os reconhecesse como meus
Mas fico na dúvida, nunca me vi tal como fui,
Nem mesmo como sou, como irei ser…
Nasci na dúvida, na dúvida cresci e na dúvida…

Livro-me dos conceitos que teimam em descrever-me
Redutores malignos impregnados cicatrizados
Ventos de temporal casas descobertas redomas partidas,
Guardo-me no oculto, no ocaso da revelação,
Não morro no céu, morro na terra, na terra que apetece.

Liberto-me da noite porque a noite… a noite é vadia,
Diverte-se com a cegueira dos outros, com as quedas
Desamparadas no fosso dos seus infortúnios,
Esbracejam para não se afogarem na sua própria sujidade,
Submersão no fundo de si, encontro consigo, monólogo a dois…

02.09.04

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Let the words flow through your veins... the music through your mind...

Once Upon A Time
mother i'm tired
come surrender my son
time has ravaged on my soul
no plans to leave but still i go
fallin' with the leaves
fallin' out of sleep
to the last goodbyes
who cares why?
mother i've tried
wasting my life
i haven't given up,
i lie
to make you so proud in my eyes
fallin' out of sleep
crawlin' over me
to the last goodbyes
who cares why?
tuesdays come and gone
restless still i drive
try to leave it all behind
fallin', fallin' out of sleep
fallin', fallin' with the leaves
i got crawlin', crawlin' over me
once upon a time in my life...i went falling
mother i hope you know
that i miss you so
time has ravaged on my soul
to wipe a mother's tears grown cold.
The Smashing Pumpkins - Adore

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Lágrimas de enxofre

Lacrimal

Fosse eu a partícula que se esvai num tempo sem espaço
E que se esfuma num respirar breve em melodia.
Algo semelhante a uma ave que cai, morta em silêncio, despida de estendais.
Quando acordo do sono preso nas amarras do destino,
O sol vai alto, tão alto, bem perto do céu.
O queimado da pele ácida que me cobre, que me corrói bem dentro.
Vísceras amontoadas em corpos desnudos e putrefactos.
Inspiro.
Inspiro sublimemente.
Inspiro sublimemente a tua mão, a tua face, os teus olhos, tudo teu.
E quando mastigo sou homem, julgava ser ou não ser ou ser só por ser
Porque ser só por ser não é ser é apenas fingir que se é.
Tal como fui ou sou ou serei ou pretendi ser
Só para que me fosses o que sempre te quis ser.
Como sempre, talvez.
Ou apenas a leve agitação interior de podre e amargo.
O pêssego que amadurece e apodrece antes que o saboreie.
Desejo-te na névoa, no sonho, na melodia que entra pelos ouvidos e me invade...
Não te sei explicar, nem sei quem és, nem do que gostas de ouvir.
Lá fora jaz a noite. O meu manto de noites eternas.
O meu regaço de consolo e sonho. De solidão.
Eu sou a solidão. Eu. Sim eu, porque tu. De ti nada sei.
Nada soube. Opaco muro que me enclausura
Numa escravatura sufocante do tempo que rareia.
E respiro.
Respiro?
Acho que sim.
Sinto o corpo a elevar-se.
A sede.
A fome.
A carne.
A água.
A chuva e a lama.
O corpo e a alma.
A morte e a morte.
De mãos caídas caminho no plano oblíquo do que julgo ser.
Caio em tentações supérfluas.
Que já ninguém guarda.
Que já ninguém persegue.
Soubesse eu chamar-te, olvidar-te, sossegar-te, repousar-te...
Soubesse eu em delírio fugaz escapar às amarras do infortúnio de ser.
O sangue coalha no canto dos pássaros, alvorada manchada.
E o azul mistura-se na minha voz, no meu grito, no meu caminhar.
Sou eu quem te persegue e se senta na tua sombra para não me queimar do sol.
Dá-me a mão.
Levanta-me.
Faz-me rir.
Deixa-me chorar.
Ama-me.
Não percebo.
Não sei.
Raios!
Manto breve de inquietação, em vírgulas e acentos mal colocados.
Que palavras mal escolhidas, que voz ridícula.
Ainda bem que não falas.
Suspiras. Suspiro por ti. Não sentes.
Só em música te elevas e te desprendes da realidade,
Porque acreditas no poder das estrelas.
Também desejo.
Também desconheço o beijo.
Os espinhos cravados na fronte.
Da rosa.
Da rosa seca de sangue.
De sangue derramado sobre os passos soturnos da sombra que é minha.
Vem do fundo.
Em ecos que se perdem pelos vales da solidão.
Pelos espaços vítreos do meu.
Sim, do meu.
Não estranhes.
Porque não há norte.
Não há.
Não há, porque não há.
Não te devo resposta.
Porque não há.
Vácuo.

domingo, dezembro 31, 2006

Continuo à espera...

Oblíquo

Enquanto o cântico se estender
Pelo infinito bordado no horizonte
Estenderei as mãos para segurar os anjos que desfalecem
Por se terem apagado as suas auréolas descrentes,
A crença roubada ao criador das harpas.
Os que pedem a rendição, o último aceno,
Ficam presos nas pautas, pelas asas,
São as vozes que se ouvem nos crepúsculos de sangue,
Cânticos etéreos de súplica e de salvação.
As minhas mãos estendem-se para segurar os anjos que esmorecem
Por se terem livrado do branco e abraçado o negro da noite,
Em cada asa a chaga da verdade, da ocultação da carne.
As putas aos tombos numa dança frenética,
Na palma da mão do criador das harpas.
A madrugada recolhe-se e o dia nasce rosado de vergonha,
É que as putas esqueceram-se das asas
E a mão permanece estendida á espera que a fechem.

22.01.06

sábado, dezembro 30, 2006

Ficaste, nesse mesmo instante... para sempre em recordação!

Fotografia

No sobressalto do anoitecer aconcheguei-me,
Silenciosamente, no regaço da melancolia
E aí fiquei, até o sol nascer, até o brilho me encandear.
A página está em branco. O medo sorri-me. Caem as últimas gotas
Do nevoeiro que, timidamente, se dissipa nesta manhã fugidia.
Ao mesmo tempo que olho para ti, naquele instante espontâneo
Que guardou para sempre o olhar vítreo que me sondava. A tua
Beleza em figura, as águas que te banham o rosto, cicatrizes
Soltas na leve agitação das algas… o sossego do silêncio
E a fantasia da recordação que se inscreve nos traços das tuas mãos,
As mesmas que decalcam os céus, as mesmas que seguram os anjos
Que se desprendem do Além. Também as harpas tocam para ti,
Também a lua te saúda. Lanço-te ao infinito…para sempre dama.
O suspiro crepuscular que se desprende da minha alma, enevoado
De incertezas, encontra-se contigo na ânsia última de viver,
No desespero medroso da poça de sangue onde mergulho os olhos.
Lacrimejar cristalino, na memória do que foi. Para lá do momento,
A esperança do retorno e a beleza da utopia.

09.10.04

Acordei com a vontade insistente de me envenar com o meu próprio sangue

O sabor a sangue

A manhã estava salpicada pelo negrume dos teus cabelos,
Uma pele orvalhar que se estendia sob os meus passos.
Ao de leve, a brisa dava-me as boas vindas, num afago
E ao longe o horizonte permanecia imóvel a cada momento meu.
Seria um augúrio de morte, ou apenas de saudade,
Um sismo em pausa ou apenas um retrato etéreo esquecido no cimo do monte…
A tarde adiava livrar-se desse negrume capilar,
Mas num súbito tremor, o sangue jorrou da fenda da tua face,
Num segundo que permanecia não findar, tu a esvaíres-te,
Eu num desmaio retardado pela súplica de ajuda. Estendo a mão,
Flácida no degelo da manhã que se dissipa do retrato que parecia inalterável.
Do horizonte chegam uivos, trazidos pela brisa que não acalma,
Uma bofetada, uma fenda corrompida pela saudade.
E a noite que se aproxima, a mancha de sangue que aumenta a cada suspiro,
A agonia de escutar, longe deste tempo que me aprisionou. Cada lacrimejar.
Cada soluçar. Cada pulsação a cada verso de sangue. E é a noite que o traz.
Aquele cheiro a morte, disfarçado pelo odor a rosas murchas, a saudade dos que ficam,
Um caminho traçado para que não se percam na caminhada para a paz.
Um cheiro fétido a saudade. Um remoer de vozes encarquilhadas pelo tempo.
Sou figura de terra, broto do chão que me há-de acolher. Rebolo no sangue,
Deixo-me envolver no novelo negro dos teus cabelos. Outrora o horizonte,
Hoje o húmus e a vida que me consome. Sou dos anjos, do sopro e do murmúrio.
Amanhã exulto-me em cânticos, em delírios e em sonolência. Um beijo na face e o Sabor ao teu sangue guardado para sempre nas fendas dos meus lábios.

22.02.06

O 1º suspiro

Origem

O odor a terra,
O leve céu que se aprisiona na bruma,
Na imperfeição do princípio adulterado.
Fosse eu origem de ti.
O branco translúcido
Das palavras que te endereço
São o rosto invisível do amor que nos une.
Fora da metafísica do óbvio,
Escondido da ilusão outonal
Que precede a invernia da perda.
Fosse eu origem de ti.
Fosse eu origem de tudo o que te surpreende.
Fosse eu a sombra que te contorna.
Fosse eu o destino que te prende.
E talvez assim, o longo caminho ladeado por cedros secos,
Cedros ásperos e cinzentos, ganhasse a vida de outrora,
A mesma vida que se alimentava da vida do teu mar.
Fosse eu origem desse tumulto,
Desse mar enraivecido que engole montes e vales sem igual.
Fosse eu origem das chamas
Que te devoram sem piedade, musa de etérea idade.
Fosse eu o céu que te acolhe,
Com canções de embalar, suspiradas a cada murmúrio teu.
Fosse eu a origem de ti.
Descrita neste branco translúcido,
Por palavras que te endereço, nesta noite fria e outonal.
Fosse eu a origem.
De ti, madrugada original.

29.11.05