domingo, julho 20, 2014

atos

(...)
Escrevo-me.
Pontuo-me.
Rasgo-me.
Exclamo-me.
Não passo de uma página em branco que arranha os sentidos.
Pontuo-me.
Escrevo-me.
Rasgo-me.
Exclamo-me.
Na aspiração a asas maiores.

A queda anelar. 
(...)

O medo

O medo vem encapuçado.
Vem daqueles que comem de boca aberta,
Daqueles que falam com a boca cheia de lodo.
A vida escorre, húmida, pelos espaços entre os dentes.

O medo vem mastigado.
Nas bocas de lodo restam as palavras da morte,

A preto e a branco.

domingo, junho 03, 2012

terça-feira, abril 24, 2012

Passion dans un spectre de couleurs

"Les Amoures Imaginaires"
un film de Xavier Dolan, un de mes favoris





Nicolas: You have a big bed, right? Francis: Yeah, I have a big bed. You can sleep here, we'll just... We'll just squeeze in. Nicolas: Thanks, man. Marie: Shotgun the side. Francis: I hate the middle, too. Nicolas: No sweat. I like the middle.

sexta-feira, abril 13, 2012

quarta-feira, março 21, 2012

Deus nos livre de bocas abertas, homens de mau recado e de mulheres que correm fado




Os sons da rua acenam-me pela varanda. Convido-os a entrar
na recusa do ocaso, no poente de mim não mais um nome por obrigação mas o homem
no seu todo. O homem duplicado pelo desenho do corpo envolto por ferros a
partir de então denominados de ferrugem porque da ferrugem as marcas e das
marcas o homem no seu todo. Os sons da rua esperam-me na varanda. Um poiso para
patinhas de pássaro, um passar de olhos, bom dia boa tarde como vai das dores
de alma se da alma um poente… a mulher sem nome, um acaso em que se tocam por
entre ferros e dos ferros a ferrugem que já se anunciara, da ferrugem partes
porque este homem é um todo… bom dia boa tarde boa noite, durmo mal há uns dias,
são as maleitas da idade, já dizia aquele homem de quem só guardo a imagem a
preto e branco de face quase enferrujada, bom homem no seu todo, da mulher
partes emolduradas e da moldura asas de libélula que dos encontros só rascunhos
em papel mata-borrão. Vá em paz e que deus o acompanhe, se deus me acompanha
deixa os outros sem guarda, deus é grande, grande é mas da varanda não deus só
pássaros incompletos, são as partes de deus. Bom dia boa tarde boa noite, das
maleitas uma infusão e da alma um vapor, adeus que se faz tarde, se o quiser
cumprimentar, um bater de asas que de nome não digno, nem que em sua morada
entre, pela varanda reconheço-lhe as patinhas, assim seja, assim o será.

terça-feira, março 20, 2012

Se


Se te cruzasses comigo numa viela qualquer, talvez uma pausa de insinuação e um dar de mãos só porque sim. Um risco na parede tal e qual um roçar de ombros ou um piscar de olhos em simultâneo. Se me pedisses um lábio cedia-te a pálpebra esquerda. Se me pedisses um murmúrio cedia-te o pescoço. Se me pedisses o nada cedia-te o tempo que me resta para que dele me reconstruísses com pequenos encaixes.

segunda-feira, março 12, 2012

Sou como asas que apontam para o horizonte



Sobre o tempo não há mais nada a delinear
Sou como asas que apontam para o horizonte
E se as asas me cortam, penas e ossinhos de frágeis
angústias…
Outrora metamorfoses e não sonhos
Dos sonhos, criaturas que ocupam espaços
E não olhos esbugalhados em ânsias com efeitos colaterais…
Do medo apenas pó e sedimentos
Os castelos na areia são provas de inocências
Que as ondas do mar envolvem em espuma e algas…
Sobra-me o tempo do ir e vir
E de olhos esbugalhados depeno as asas
Antes que as cortem e alimentem os sonhos, das criaturas
apenas as ânsias…
Em solilóquios de espuma
Os ossinhos em vibração
Castelos desfeitos com os murmúrios que se afogam no mar.

Não se contam pássaros pelas asas



Não se contam pássaros pelas asas
Mas pelos bicos em surdina que tarde chegam
E salpicos nos céus que não são estrelas
Mas sinais de percursos desalinhados.
Dos que quiseram voar e de omoplatas asas
E não bicos porque das línguas só medos em surdina.
Dos sonhos não se tem registo, nesse mundo só quem deles
sabe
E deles não reza a história nem por linhas tortas se escreve
direito.
Também as pedras falam, evocam mãos e dedos
E das pedras asas e bicos e pássaros mas não sonhos,
Nem tortos nem pragas em linhas direitas como o sermão
Que os peixes recordam em redor de si, que a eles não mais
se pede.
Não se contam os homens pelas omoplatas que asas serão
Mas pelos olhos fechados que tarde se abrem.
Rumo aos céus, diz aquele que em bicos de pés se prende a uma
nuvem que passa
És coxo da perna direita, diz o que navega numa jangada de
ossos
Talvez não seja de ossos mas penas de pássaros sem bico, diz
o coxo em bicos de pés
São asas meu caro, asas de milhafre, diz o que do próprio
corpo faz jangada
E a nuvem passa e o milhafre abandona o espaço aéreo em
sinal de despedida.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Prelúdio nostálgico


Mas porque insistes em agitar as águas que te embalaram se me pesam os olhos e as rugas são ondas? Não sejas pó num sopro em espiral, aprisionas-me em redes de palavras que não entendo. Os mesmos poemas em recitais intermináveis, o teu latejar em monólogo. Porque te adorava em manhãs de outono, preparava-te a cama num momento de aperto e uma overdose de cheiros que não me largava. Era eu em mim e não só pele e osso e rugas que eram ondas. Cheiras-me ao azul longínquo. Ao azul que me invade de nostalgia. No cimo de mim para ti, em asas de borboleta. Em nascentes de lodo e muros de altura que não percepciono. Não me empurres contra os muros, não me feches a boca com lodo porque do lodo girinos e girinos em metamorfoses. Em manhãs de outono num prelúdio de inverno na mesma ópera que me murmuravas de boca fechada. Renascia a cada murmúrio, a cada dedo em riste num aviso de tentação. Eu na ponta do dedo numa dança que me parecia eterna, na ponta dos pés, lamacentos de ternura. Que me queimem em praça pública, eu estendal de rugas e sobrancelhas desleixadas. Gargalhadas e línguas, o bater de asas de borboletas em espirais de azul incandescente. As cores de uma manhã de outono num copo de vinho que te espera. Como era subtil o teu gesto de dedo em riste para uns olhos sem irís. Que da irís entendes tu, eu apenas dedos entrelaçados nas pontas dos pés. Em asas de borboleta, metamorfoses de lodo em paisagens de outono. Se me encontras, preparo-te a cama, sigo-te no gesto de beber o vinho que te aguarda, escuto os poemas que sempre recitas e mergulho nos murmúrios da ópera que te faz sentir. Invadem-me as cores de uma manhã sem tempo, só o azul no embalar de um bater de asas que surge de não sei onde, tal como eu, no cimo de mim em bicos de pés, a dança espiral na ponta do dedo em riste. Línguas de lodo e as rugas são ondas.

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Limbs are waiting to be embraced

Once this morning, heavy with those clouds
I barely spoke, those words I felt I would never spell
My eyes were glass, broken windows
Not a dream, somekind of a novel, written without sense
And the tree growns without worries,
No apologies...
If I could embrace the limbs...

segunda-feira, outubro 24, 2011

Páginas em branco



Desafio a gravidade, suspenso pelos pés com o sangue a pesar-me nos olhos.

Espera do que tarda




Intersectam-se olhares e lábios perpendiculares. Apenas dedos e filamentos de cabelo num momento suspenso. Outrora ficavam cicatrizes onde hoje permanecem fósseis de rostos sem expressão. A respiração mantém-se inalterável, o tumulto interior é um compasso desordenado. Trocam de pele, num ritual arrojado. Fim da viagem, e não me reconheço.

Alinhados prosseguimos, caminhando...



Linhas cruzadas.
Linhas temperadas por salpicos de pudor.

Linhas que se pontuam por ânsias.
Linhas que jamais tendem para pausas demoradas.
Linhas que não encerram espaços em branco.
Linhas que antevêem olhares libertos.
Linhas que ostentam roupas gastas pelo uso...mas que transpiram odores de vidas ocultas.
Linhas emaranhadas em corpos mecânicos.
Linhas que se corroem só por existirem.
Linhas que são lápides.
Linhas não mais que raízes.
Linhas e regurgitações, vestígios alinhavados.
Linhas numa cadência catatónica, apofania de suspiros e um grito pontuado.
Linhas que se regem por rotinas inalteráveis.
Linhas que não ousam sequer perspectivar a finitude.
Linhas e não previsões meteorológicas, tornados de estados de espírito.
Linhas orfãs, numa mesa de pedra e quatro bancos solitários.
Linhas naturais e eu em bicos de pés só para me desterrar.
Linhas em fragmentos de orvalho e uma qualquer critura na intersecção dos espaços.
Linhas que se realinham por ordem divina ou qualquer força oculta.
Linhas numa dança em câmara lenta e um cigarro que definha no cinzeiro de ninguém.
Linhas crepusculares, benção de corpos bem intencionados e um chã de tília para acompanhar.

domingo, junho 26, 2011

Dopamina




Nem sempre se desafia o percurso que nos foi imposto.

Talvez por ser demasiado calculista ou obsessivo.

Não se pretende construir estradas de cubos, mas ruas sem término perceptível.

Não me encontro no término da linha, mesmo ao virar da página que me descreve.

As vozes entrelaçam-se por becos sem saída e só a brisa nos levita em ânsias que se demoram...

Sem definições conceptuais, sem versos encadeados, sem equações matemáticas, não laboratórios de química porque transcende-se o óbvio e na ausência do óbvio a metafísica e os nomes são definições impostas...

Tão somente um momento desprendido de eufemismos.

Asas de borboleta estampadas na pele do avesso.

Metamorfoses viscerais e da alma nada se sabe.

sábado, junho 11, 2011

Swamp

And for a moment I stay
Still waiting for nothing
Than a black scene of dragonflies
Falling from skies wide open
And still I pray for
A cross in the path or a simple question
Of space, of time, of a song without sense
A bittersweet embrace in fading shades
And teardrops everywhere I lay...
And for a moment I sigh then
I die and ashes inside my eyes
Don't dare to spit on my wounded fingers
Or else... or else I am a dragonfly in circles
Not to breed a cancer with lipstick words
Just a sample of a disease
Yet I please for a forgotten god
Will you...? Just wondering not looking
For a cross in the path, the river is dry
As I am for kindness and hope...
Shall I still... wondering for circles
And dragonflies suspended in ropes
Like the time I suck for such a lovely letter
A movie backwards, clowns and skinny dogs
I am starved for human emotions
And still I care for your fingers, your teeth,
Wounded limbs in dark rooms full of withered eyes...
Will you stay here for a moment till I crawl,
I have a skin to hide myself
And still you laugh just because
A fake is always a fake even if I choose
To crash this empty glass heart
Feeding the swamp with another memory
Not anyone else, just me...

quinta-feira, maio 05, 2011

Neurastenia

Já te viste ao espelho hoje?
Reconheceste-te no vértice de um qualquer ângulo agudo,
As expressões de quem range os dentes por agonias avulsas
E o êxtase impróprio por ironias derramadas em soluços?

Já te insultaste ao espelho hoje?
Ou aguardas que te esbarrem contra o vértice que te aponta,
O relicário de cinzas com que te maquilhas
Só porque lá fora te aguarda o abismo de não ter?

Já te prostituíste por actos e omissões?
Num tempo contado por um cigarro que se esvái
E que tenta afundar-te em memórias de areia
Ferem-te os lábios que não sabem que verbo conjugar?

Já foste miragem ou inquietação?
Um compasso de espera ou uma pauta desordenada?
Um traço na pele ou uma escama em decomposição?
Ou o reflexo do pensado num vidro partido?

Já te viste ao espelho hoje?
Ou um acto de auto flagelação em êxtase corporal?
Actos e omissões por minha culpa masturbação,
O relicário de cinzas e os lábios cerrados,
Enquanto me conjugo em soluços e espamos
Na brevidade de te prostituir enquanto forma de areia.

segunda-feira, abril 25, 2011

Transfusões

A luz apaga-se e eu não encontro o meu caminho
Que me tire desta clausura, deste labirinto
O chão é aspero neste estio infernal
O preço do desprezo e do pecado original.

Bebe, do meu sangue frio
Come, do meu corpo vazio
És sangue, do meu sangue frio
És carne, do meu corpo vazio.

Neste carrossel de tortura musical
Nauseas de aborto num jogo virtual
Pesadelos de água benta de sopro tumular
Aves de rapina numa dança circular.

Bebe, do meu sangue frio
Come, do meu corpo vazio
És sangue, do meu sangue frio
És carne, do meu corpo vazio.

segunda-feira, abril 11, 2011



Escrevo-te para evitar pensar-te.

Tão somente dizer-te em prolongamentos de braços que não metamorfoses e barcos à deriva.

Pálpebras cerradas pelo orvalho e os dedos em rotação.

Faltam-me sílabas para te compôr. Palavras que se insunuam mas que em ti não cabem.

Sem o saber sou eu e as sombras, o nada que ocupo e o tempo que não recua.

Em prolongamentos de línguas que não se tocam. Um ar gélido de madrugada...

Se me lesses nas entrelinhas e pedaços de cal que se soltam...

Jaz em ti um piano antigo. Em mim filamentos de uma qualquer substância.

Por momentos, um caos poético. Em câmara lenta, no abismo de nós.

terça-feira, março 08, 2011

Um Porto Antigo

Se me cobrires de terra que seja da extensão do vale que te preenche
Que em cada declive pontes e caminhos de ferro
Portos cobertos de musgo de tão antigos e barcos á deriva
Pescadores de nostalgia, amor em estado líquido.

Se me cobrires de água que seja da profundidade da barragem que te encerra
Que em cada afluente santuários sem chama
Paisagens de natureza morta em carne viva
E um percurso de espanto, a poesia dos sábios.

Se me cobrires de palavras que sejam inocentes como as gentes que me falam
Cobertas de musgo de tão antigas e chaminés de fumo
Arcaica forma de assinalar presença e encontrar aconchego
Mesmo que a fonte seque com o estio dos desventurados.